O céu por testemunha

Uchôa aos 15 anos já vasculhava o céu num telescópio trocado por um acordeom

Uchôa no escritório

Aos 12 anos de idade, quando cursava o terceiro ginasial, ele ganhou de presente do tio Zé Doidinho o livro "Maravilhas Celestes", de Camille Flamarion, e ficou encantado. Gostou tanto que três anos depois trocou seu acordeom Scandalli por seu primeiro telescópio, um Levion alemão. Com ele vasculhou o céu como fundador da Associação de Amadores de Astronomia, entidade que reunia estudantes e mereceu, em 1950, uma reportagem na Tribuna da Imprensa (Rio), assinada pelo jovem repórter Carlos Lacerda.

Cleofas Ismael de Medeiros Uchôa, hoje com 66 anos, continua curtindo o céu, só que agora do seu observatório particular montado na torre de sua casa na praia de Manguinhos, na cidade de Búzios, onde reúne amigos e estudantes da região para, através de moderno e computadorizado telescópio Celestron 14, com uma aproximação de até 600 vezes, apreciar alguns dos 10 mil corpos celestes catalogados no computador.

Filho de tradicional família pernambucana, Cleofas nasceu no Rio de Janeiro com a ajuda de parteira numa casa no bairro de Botafogo, mas criou-se, em Ipanema, nas ruas Montenegro (hoje Vinícius de Moraes) e Nascimento Silva. Colégios, freqüentou os tradicionais Notre Dame, Fontainha, Santo Inácio e Melo e Souza, antes de entrar para o Colégio Naval (1952).

Reportagem de Carlos Lacerda...

Aos 25 anos, ainda na Marinha, fez concurso para Engenheiro Naval na USP e, depois, mestrado em Engenharia Elétrica e Telecomunicações (MIT), em Boston, Estados Unidos, voltando para ser professor na PUC (Rio) e na Universidade de Brasília (UnB).

Dedicando-se à área de telecomunicação, saiu da Marinha quando era Capitão de Corveta para assumir funções administrativas em várias empresas (Telebrasília, ITT, Cobra Computadores, Embratel, Iridium) até chegar atualmente à presidência da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), entidade de classe do setor.

No seu caminho conheceu a cidade de Búzios trazido pelos filhos e durante um passeio para comemorar os 50 anos (1985) teve a chance de comprar um bom terreno, onde o filho João, recém-formado em Arquitetura, projetou a casa da família.

Telescópio Celeston 14

Em Búzios tornou-se bastante conhecido por montar e desenvolver (1988/93) a Rádio FM e a TV Búzios, pioneiras na região. Foi também dono da TV Lagos (Cabo Frio) e sócio das TVs Macaé, Angra dos Reis e Paraty. Mas, desiludido com as despesas astronômicas do empreendimento, vendeu tudo e voltou às telecomunicações.

Entusiasmado pelo céu buziano, Uchôa realizou um sonho juvenil ao montar anexo a sua própria casa um observatório astronômico amador. Depois de consultar o astrônomo Rogério Mourão e especialistas norte-americanos, importou o Celeston 14 (espelho de 36 cm e 4 metros de distância focal), além de uma cúpula de metal, equipamentos instalados numa torre de dois andares projetada pelo filho arquiteto.

No primeiro andar, fica seu escritório cheio de livros, antigos equipamentos de astronomia, o computador, o primeiro e histórico telescópio Levion comprado aos 15 anos de idade, um quadrinho com a reportagem de Carlos Lacerda, modernos equipamentos óticos e sua capa de Mago Merlin que usa quando quer se abastecer do seu próprio imaginário. No segundo andar, o telescópio que dá uma aproximação dos corpos celestes de até 600 vezes, direcionado para a cúpula que se abre automaticamente ao seu comando ou do seu assistente-científico, o jovem Rossano de Sá Leitão.

A casa e a torre

Além da Astronomia, o Dr. Uchôa está voltado também para a Filosofia e foi em Búzios que escreveu seu primeiro livro "O baile de máscara" (1993) sobre a evolução do pensamento do homem a respeito do Cosmo.

Em seu último livro "Renovação genética ou extinção", diante de tudo o que vem acontecendo no mundo moderno conclui enfaticamente: "o cérebro humano é incapaz de rodar um programa de paz e, por isso, a espécie humana está em processo de extinção e será inevitavelmente substituída por uma outra espécie. É questão só de tempo".
Para ele o ser humano é inviável.

"A eternidade de uma alma não seria suficiente para visitar o infinito e tudo conhecer."

Camille Flamarion