Personagem

Foto by Sergio Fleury

Ramon foi amigo do "Che", hospedou BB e assessorou Jacques Cousteau

"Ramon era guapo, terno e terrivelmente sedutor. Ele me ensinou a tocar na guitarra o ritmo da bossa-nova". Assim a famosa atriz escreveu a página 346 do seu livro de memórias "Iniciales BB", sobre este argentino-buziano Ramon Avellaneda que a hospedou em sua casa da Rua das Pedras, no Natal de 1964 e, onde hoje é a "Pousada do Sol", que tem na porta da suíte nº 8 a placa "Ap: de Brigitte Bardot".

Nascido em Buenos Aires há 70 anos, foi criado no "chaco" paraguaio onde aprendeu a falar guarani nos bancos escolares. Ali viveu por 20 anos, inclusive no tempo da Guerra del Chaco, entre Paraguai e Bolívia. E foi nessa época, entre os 15 e 18 anos de idade que se tornou amigo do Ernestito, "figura extraordinária desde jovem, muito independente e familieiro (caseiro). Ele era dois anos mais velho e afilhado de batismo do padastro Pedro".

Ao falar do amigo de juventude Ernestito "Che" Guevara, Ramon esclarece que na verdade "ele foi um grande médico, um aventureiro das causas sociais que se chateou com a russada e partiu de Cuba para a selva boliviana para começar outra luta social. Ninguém precisa acreditar, mas meu padastro tinha uma fita cassete que depois, com medo, jogou na lareira em que Ernestito confessava que nunca tinha sido e nunca seria um comunista"- conta Ramon preocupado que o considerem mentiroso.

Deixando o chaco aos 21 anos de idade, foi ser lutador de box amador, mas desistiu depois de 12 combates, um título de campeão de peso médio e de ir à lona oito vezes na última luta de sua curta carreira. Passou à gerência de uma empresa florestal com três mil trabalhadores na floresta onde manteve contatos com índios.

Aos 26 anos, Ramon optou pela carreira diplomática, morou em La Paz (Bolívia), de onde veio para o Rio de Janeiro ser adido cultural: - cheguei com 30 anos na cidade que vivia a cultura fulgurante dos anos 60 e conheci figuras inesquecíveis como os escritores Guimarães Rosa e Rubem Braga e atrizes como Tônia Carrero. Virei botafoguense, salgueirense e carioca - lembra saudoso.

Ao conhecer Búzios encantou-se com "aquele bananal paradisíaco", alugou casa e hospedou Brigitte Bardot: - ela veio a primeira vez no verão 1964 quando ficou na casa do André Mouravieff, em Manguinhos, praticamente sem o assédio da imprensa e pode curtir a cidade e seus moradores.

- No Natal de 1964, voltou para descansar das filmagens de "Le Mépris"(o namorado Bob Zagury era amigo de minha mulher Marcela), e dessa vez se hospedou na minha casa, na Rua das Pedras (hoje Pousada do Sol), comprada do pescador Edelpidio Melo da Silva, pai do maior mergulhador que conheci, meu amigo Soca - esclarece Ramon.

Dessa segunda vez a imprensa não a deixou em paz. Ela ficou incomodada pelo assédio dos fotógrafos e nem podia sair de casa. Era prestativa, nada vedete, muito natural e trazia gatos e cachorros da rua para tratar de suas mazelas.

Em 1965, Ramon deixa o cargo de adido cultural, no Rio, volta para Buenos Aires, vai morar em Paris, conhece o Rio Amazonas e o lago Titicaca, assessora as expedições científicas à Bolívia de Jacques Cousteau e escreve, no francês "Le Figaro", a biografia do amigo "Ernestito", ou melhor Ernesto "Che" Guevara.

E, aos 43 anos, volta a freqüentar Búzios como aposentado da diplomacia e passa a viver da pesca da lagosta como mergulhador profissional, nos barcos "Cacau" e "Mar Azul" (o detalhe é que detesta comer lagosta). Quatro anos depois, com a experiência de pescador submarino, vira supervisor de mergulho de saturação da Petrobras, na plataforma petrolífera de Campos onde, "fez manualmente o primeiro acoplamento do oleoduto submarino a 80 metros de profundidade, um marco na época" - conta orgulhoso.

Para fugir da badalação e cuidar dos negócios, o argentino-botafoguense-salgueirense-buziano Ramon Avellaneda, hoje com 70 anos de idade, mora na cidade vizinha de Barra de São com a segunda mulher Stela (ao todo teve quatro filhos) e quando visita Búzios hospeda-se na suite nº 8 da "Pousada do Sol", sua antiga casa, hoje da ex-mulher Marcela que virou psicanalista, escritora e mora em Buenos Aires.

Foto arquivo BzN

Soca viu Brigitte de biquíni, ganhou máscara & snorkel de Bob e um dia quer ser prefeito

Ramon, Brigitte e Soca

O avô José foi comido por tubarões quando mergulhava no lajeado entre a Ilha das Âncoras e Gravatás; o pai, Seu Pide, um faz-tudo na cidade, fabricava até urnas mortuárias para enterrar moradores falecidos; ele, Soca, que viu Brigitte Bardot de biquíni e ganhou do Bob Zagury máscara & snorkel, virou mergulhador profissional, foi campeão brasileiro de pesca de mergulho, descobriu pesqueiros com Meros de até 150 kg e, ainda pretende se candidatar a prefeito de Búzios.

Vilson Santos da Silva, ou melhor, Soca, nasceu em15 de dezembro de 1951 com a parteira Mariana, como a maioria dos 14 irmãos, na casa da família na Rua das Pedras, onde hoje é o restaurante Au Cheval Blanc. Filho de Edelpídio Melo da Silva (Seu Pide) e de Dona Benedita, sempre conviveu com duas histórias lendárias da aldeia buziana: a da morte do avô comido por tubarões e a da fama de benfeitor do pai.

Da salga de peixes na infância de pouco estudo, seu primeiro trabalho, passou a ajudar os pescadores de anzol e rede, até que um dia foi ser marinheiro do barco do argentino-buziano Ramon Avellaneda e do francês-carioca Denis Albanèse, os anfitriões da atriz Brigitte Bardot nas duas visitas que fez a Búzios.

Por ter apenas 12 anos de idade, da BB só se lembra da moça que tomava banho de mar com um biquíni bem pequenino, mas pelos amigos Ramon e Denis tem a gratidão de o terem ajudado a ser mergulhador profissional, "o melhor que já viu", reconhece o próprio RAMON AVELLANEDA, ele também mergulhador nos anos 60/70.

Tudo começou naquela mesma época com a máscara & snorkel ganhos do namorado de Brigitte. Depois, com prática e experiência, foi campeão brasileiro em diversos campeonatos de mergulho por apnéia (suspensão da respiração) até ser contratado pela empresa do amigo e incentivador Denis Albanèse para fazer mergulhos arqueológicos com aparelhos (aqualung) nos mares de Cuba, França e Guatemala.

Soca vive até hoje do mergulho profissional (arqueológico & pesca) e, aos 50 anos de idade, ainda está na plenitude do seu preparo físico. Seu barco de pesca chama-se "Grande Romance", inspirado numa embarcação turística de um parque Disney, em Orlando (EUA).

Além da história do tubarão que comeu o avô quando pescava de mergulho junto a Ilha das Âncoras, ele gosta de contar a de um pescador na Praia da Ferradura nos anos 60: - enquanto cochilava à beira-mar, seus companheiros de molecagem amarraram uma linha forte no seu braço e jogaram a outra ponta com anzol e isca no mar. De repente um cação mordeu a isca e saiu arrastando o pobre coitado pela areia. Para a sorte dele, o bichão conseguiu escapar do anzol - conta Soca.

O sonho atual de Soca é ser eleito prefeito para construir um aquário marinho natural, em Búzios, para onde traria alguns Meros com até 150 kg que diz existir num santuário pesqueiro que descobriu na costa buziana, cuja localização é segredo e só ele e o filho sabem.

História de pescador? Sonho de político? Quem sabe um dia se torna realidade...