Praça dos Ossos

Zé e a sela do Silver

José Luiz Itajahy vai entrar no céu montado no seu cavalo Silver ganho aos sete anos

Nascido na Lapa, "único lugar digno de um almirante batavo" e a 25 de dezembro, o "mesmo dia do Homem", José Luiz Itajahy, filho de militar e de professora, foi criado na antiga rua Acarai, 73, hoje José Linhares, no Leblon.

Aos cinco anos de idade já montava cavalos e no dia 10 de abril de 1941, aos sete anos, escrevia de Belo Horizonte uma cartinha que dizia: "Querida vovó: como vaes? E todos aí? Eu vou bem, estou no 1º ano do Colégio São Paulo. Tenho saudades suas e de todos. Troquei o Toni por um cavalo branco Silver. Beijos no vovô, titias e priminhos. Muitos beijos do José Luiz".

... cartinha da vovó ...

Ao reler essa carta escrita há quase 60 anos e hoje num quadrinho na parede, José Luiz pára, pensa e pergunta com seu jeito esfuziante: - você conhece alguém, além do Zorro, é lógico, que teve um cavalo chamado Silver?

De volta ao Rio com a família e o seu cavalo Silver, freqüentou os colégios Henrique Dodsworth, Santo Inácio ("detestava Latim, mas agradeço aos jesuítas a formação que tenho"), Juruena e um cursinho de Medicina a pedido da família, mas nem chegou a fazer vestibular: seu negócio era o comércio.

Aos 18 anos, já trabalhava numa empresa de móveis e estantes de aço. Depois passou para tecidos e, aos 26 anos, fabricava sandálias & mocassins, no pioneiro Centro Comercial de Copacabana.

Aos 32 anos inaugurava a loja Bibba de Ipanema (Maria Quitéria com Visconde de Pirajá) que virou griffe de sapatos, cintos, bolsas, estamparia. Depois, a Bibba Kid.

A Bibba virou Arco da Velha

Em 1978 inventou o Tratoria Torna, seu primeiro restaurante (projeto do Otavinho Raja Gabaglia) também na Maria Quitéria "onde a comida era ruim, mas um sucesso por ser uma novidade italiana".

De tanto viajar, ler e se interessar por comida acabou chef de cozinha, "embora nunca tenha sonhado com uma frigideira". Teve os restaurantes Porto do Mar e o Empório, hoje um bar de muito agito administrado pelo filho Lauro (a filha Cláudia é campeã hípica).

Em 1983 fechou a Bibba carioca e, no ano seguinte, abriu a Pousada do Lobisomem (antiga Villa Ramos), na então badalada Praça dos Ossos, época que Búzios não passava de um lugarejo "sem conforto, água e luz, mas com mosquitos, charme e alto astral".

- A cidade que conheci a partir dos anos 60 tinha a padaria do velho Emigdio com o primeiro telefone da cidade (onde era o Bradesco); o bar do Pacato (onde está a loja BEE); o Bar Central, do Raul (quase um saloon); os restaurantes Petit Truc e Tortugue, do Troisgros, pai (Praça Santos Dumont). Era maravilhoso - comenta José Luiz.

Ainda morando na Praça dos Ossos, agora numa reformada casa onde foi sua Pousada do Lobisomem, hoje irreconhecível, abriu em outra casa vizinha comprada nos anos 70 do pescador Benil, o restaurante Provence que no início de 2001 foi reformado por Gilles Jacquard e Valéria Costa, onde servia seus pratos criativos, como lingüiça de frutos do mar, peixes com molhos agridoces (serve baiacu após lhe retirar o veneno), lulas e polvos de Arraial do Cabo.

Provence original...

...e após a modernização !

Aos 66 anos e, ainda irreverente, vai chicoteando com críticas ferinas tudo & todos, como um Zorro às avessas num desembestado cavalo branco Silver no qual continua montado desde a infância e, certamente, entrará a galope no céu gritando alôôô, Silver!

Graaande Zé!

Personagem

Foto by Sergio Fleury

Adagil fisgou um cação anequim que pulou dentro da sua pequena canoa

Como todo pescador, Adagil tem sua história para contar e, incentivado pela mulher Edite, lembra o dia em que um cação anequim por ele ferrado com anzol, pulou em cima de sua canoa, em pleno Mar Alto, e ele, para escapar do bicho que lhe caiu por sobre as pernas mergulhou no mar: - o peixe foi içado para o barco "Estrela Azul" dentro da própria canoa e no Entreposto da Praça 15, no Rio de Janeiro, deu 90 quilos limpinho, sem cabeça e sem pele - garante orgulhoso com o aval da mulher.

Adagil Gomes de Faria, hoje com 68 anos de idade, nasceu na praia da Armação e foi pescador por 40 anos de idade. Ainda criança conheceu Edite Pereira, mas "por razão do destino" só foi cruzar novamente com ela quando foi entregar um peixe numa casa no Méier: - era a casa do meu tio e ao reencontrá-lo começamos a namorar e nos casamos em 1954 - conta Dona Edite (o casal tem o filho Célio, de 33 anos).

No mar ele ficou por quase 40 anos e quando se aposentou como pescador foi trabalhar na padaria de Emídio Gonçalves Coutinho, respeitado vereador da região. Depois abriu a Varanda Mercearia, na Praça Eugênio Honold 1321 (Praça dos Ossos), na frente da casa onde mora até hoje e que passou a se chamar Mercearia do Dagil: - mesmo de casa nova vamos continuar a vidinha de sempre - comenta Adagil.