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Anibal & Marcelo,
 uma dupla do pirú...
Anibal & Marcelo by Ivone R.

O PERÚ MOLHADO É FRUTO DA IRREVERÊNCIA DE ANIBAL & MARCELO

Um é português, o outro argentino; um é filho de juiz de futebol, o outro de um psiquiatra; um é alto & magro, o outro é baixo & gordo; um é tricolor, o outro botafoguense; um escreve, o outro fotografa. Afinal, o que teriam em comum essas duas figuras tão diferentes, além da barba que por coincidência usam?

Bem, ambos são irreverentes jornalistas que cansados da batalha nas redações da cidade do Rio de Janeiro criaram só de brincadeira o "maior jornal de Búzios", o também irreverente O Perú Molhado que, de brincadeira-em-brincadeira, festeja agora seus 21 anos de existência (23 de fevereiro de 1981).

ANÍBAL, ALTO & MAGRO, O PORTUGUÊS TRICOLOR
Aníbal Fernando Henriques Martinho, 56 anos, nasceu no bairro de Alcântara, em Lisboa, filho do seu Fernando, bancário e juiz de futebol e de Lídia, dona de típico armarinho lisboeta. Ao Brasil chegou aos cinco anos de idade no então famoso navio Serpa Pinto. Ainda na Praça Mauá, a comemoração pelo campeonato de futebol ganho pelo Fluminense Futebol Clube fez do portuguesinho recém-chegado um tricolor, para desgosto do pai que seguindo a lógica virou vascaíno.

O pai empregou-se em loja de tecidos na Rua da Alfândega, e a mãe foi trabalhar com uma tia na loja Feminá Modas. Assim que a família se aprumou foi morar no prédio da rua Domingos Ferreira, em Copacabana, onde mais tarde instalou-se a pioneira lanchonete Bob's onde o miúdo Aníbal tomou muito sorvete de graça.

Alfabetizado pelos avós, em Lisboa, freqüentou pela primeira vez um colégio no bairro de Botafogo. Diariamente seu pai o levava de bonde pela manhã e o buscava à tarde. A vida foi melhorando, o pai começou a fazer carreira na loja Tele Rio (hoje é diretor) e o menino Aníbal foi para o colégio interno Salesiano, em Santa Rosa, Niterói. Dali saiu só depois do ginásio para o colégio Anglo Copacabana, o emprego de vendedor também na Tele Rio e o vestibular de jornalismo.

Como não passou e na época diploma não era exigido, começou a carreira de jornalista como estagiário do jornal Última Hora, base de suas andanças já como profissional pela revista O Cruzeiro, Folha de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil.

Quando no O Cruzeiro conheceu Búzios pela primeira vez,em 1968, fazendo reportagem sobre pesca a bordo do barco Jaraguá que aportou com problemas no motor. Enquanto consertavam o motor, curtiu a aldeia, sua gente e suas praias.

E quando na Folha de São Paulo, conheceu o fotógrafo argentino Marcelo Lartigue.

MARCELO, BAIXO E GORDO, O ARGENTINO BOTAFOGUENSE
Marcelo Sebastian Lartigue, 48 anos, nasceu às 21h30m de um dia chuvoso, na cidade de Buenos Aires, mas dois dias depois já voltava com os pais para a cidade natal de Norberto de la Riesta, província do interior com apenas 2.500 habitantes. Ali seus pais, Jorge e Nelly eram médicos clínicos (depois psiquiatras) e o avô Juan de Diós, médico rural que fazia de tudo.

Aos 11 anos de idade a família foi para Buenos Aires, onde ele estudou, entrou para a Faculdade de Arquitetura e só cursou seis meses: foi preso por militância política anti-governo Isabelita Perón e condenado como terrorista pelo Juiz Sarmento a dois anos e meses de prisão, cumpridos no Cárcere Devoto e no presídio La Plata a partir do dia 17 de novembro de 1974.

Desse período que se estendeu até 17 de janeiro de 1977, Marcelo afirma de maneira irreverente, como sempre, que "foi a melhor época de minha vida, pois aprendi muito com militares, terroristas e intelectuais cubanos, uruguaios, argentinos e vietnamitas, alguns deles meus amigos até hoje".

- Aconselho aos jovens de 21 anos que passem um ano preso, pois é uma bela experiência de vida - afirma as gargalhadas.

Ao sair da prisão começou logo a trabalhar como repórter fotográfico da Editora Atlântica, pela qual foi credenciado para a cobertura da Copa do Mundo de Futebol, na Argentina (1978), mas da qual não participou: achou mais prudente sair do país que, na época, Governo Jorge Videla, estava perseguindo muitos de seus companheiros e ele, como ex-condenado político, não podia facilitar mais numa segunda prisão.

Foi então que comprou uma passagem Buenos Aires - Montevidéu - Rio de Janeiro - Caracas - Nova Iorque. Em Montevidéu ficou um mês e, parou no Rio até hoje. Ao desembarcar conseguiu uma vaga para morar em Santa Tereza e o emprego de correspondente do jornal argentino La Semana.

Foi nesse período em que passou a percorrer as redações dos jornais e revistas cariocas em busca de pautas de reportagens que virou botafoguense e conheceu o jornalista e tricolor Aníbal Fernando.

O PERÚ MOLHADO, 20 ANOS
Um dia qualquer de 1981, Aníbal e Marcelo, desempregados por razões diversas, decidiram abrir com um artista, a loja Búzios Artes, à rua Manoel Turibe de Farias, em frente ao Bar Nascimento, no Centro da cidade: Aníbal expôs suas pinturas abstratas, Marcelo suas fotos e o artista plástico Ivald Granato seus quadros já de reconhecida aceitação no mercado das artes. Como precisavam de dinheiro, os preços cobrados pelas obras eram muito altos e, por isso, não venderam nada.

Marcelo lembra: - um dia apareceu a chilena Mirna Cordeiro que propôs abrir um jornal depois que voltasse de uma viagem ao seu país, mas antes que isso acontecesse aceitamos um desafio do companheiro Ivald que apostou como não editaríamos um jornal em poucos dias.

No dia 23 de fevereiro de 1981 eles fecharam a diagramação feita pelo desenhista Flávio Faps que criou, também, a logomarca do jornal, a figura de um peru debulhando-se em lágrimas.

Esta primeira edição foi a única em que a palavra Peru foi escrita sem o acento, aliás como está à página 1554 do Dicionário Aurélio (peru - grande ave galinácea doméstica, Gallipavo meleagris).

O Peru Molhado nª 01


Com apenas oito páginas, O Peru Molhado número 1 tinha como manchetes "Búzios tendrá seu metrô" e "Maradona em River", esta última só para intrigar torcedores argentinos que adoravam o ídolo do Boca Jr. e que já povoavam na época o balneário.

Quanto ao nome, tanto Aníbal quanto Marcelo não sabem precisar a origem que certamente passa pela história de um mergulhador que sempre entrava de calção e pés molhados na loja deles para ver os quadros, irritando os artistas.

A irreverência de Aníbal & Marcelo bastou para batizar o jornal: O Peru Molhado.

Atualmente os dois estão separados por incompabilidade jornalística: Marcelo ficou no Perú Molhado e Anibal foi para o concorrente "Buziano". Aguardem mais notícias !