Personagem

Foto arquivo BzN

Doutor Bento hospedava estrangeiros, Zé Bento levava caixão ao cemitério

A Avenida José Bento Ribeiro Dantas começa quando Búzios começa, corta a cidade e acaba quando esbarra no mar. É a merecida homenagem ao pioneiro que chegou ao povoado trazido pelos filhos apaixonados por pesca submarina, cativou e ajudou a população e, após 16 anos de realizações, morreu em sua casa de praia (1969) de um fulminante ataque do coração.

Em qualquer canto da cidade há uma história simpática sobre o Doutor Bento, desde a do velho pescador Zeca que o chama de Zé Bento e de quem foi empregado na construção do cais até a do Volney Muchacho, do restaurante Barbado, que lhe é agradecido por ter cedido o soro antiofídico que salvou a irmã Dulce mordida por uma venenosa jararaca.

Mas fã mesmo é a viúva Eudóxia que hoje, aos 90 anos de idade, lembra com satisfação suas folclóricas histórias. Paulistana quatrocentona criada na casa da Avenida Paulista 108, em pleno coração da capital, Dona Eudóxia é neta e filha de condes e teve como avô materno um senador da república.

Foto by Sergio Fleury

- Conheci Bento advogado formado, em 1932, numa viagem de trem para Petrópolis e dois dias depois já me pedia em casamento. Era filho do médico Aristarco que morreu quando Zé completou um ano. A mãe Maria Luiza, viúva e desgostosa da vida, entrou para o Carmelo de Santa Tereza, no Rio. Ao conhecê-la fiquei encantada com sua doçura, daí minha grande amizade depois que se tornou freira e eu, sua nora - conta Eudóxia.

Advogado do Banco do Brasil e bem relacionado, Bento foi requisitado pelo governo federal durante a Segunda Guerra para nacionalizar a empresa alemã de aviação civil Condor que deu origem à brasileira Cruzeiro do Sul, da qual foi presidente até morrer.

Freqüentador da bucólica Petrópolis, o Doutor Bento atendeu, em 1953, aos apelos dos filhos Joaquim (Bentinho) e Marcos para conhecer as praias virgens de Búzios onde praticavam pesca submarina e gostariam de ter um terreninho com uma casinha à beira mar: - confesso que não gostei, tinha muito mosquito, era deserta demais, mas Bento encantou-se, comprou uma grande área da família Honold, em Manguinhos e construiu a casa onde estamos. E nunca mais saiu daqui - conta.

Búzios na década de 50 era uma desconfortável aldeia de pescadores com acesso por estradas horrorosas: - Bento curtia tudo e começou a trazer convidados ilustres, primeiro Charles Read, representante da "Rolls-Royce" no Rio e, depois, André Mouravieff, filho do príncipe russo Apostol que, em 1914, foi o último embaixador do Tzar da Rússia, na Inglaterra e, durante a guerra imigrou para o interior do Brasil. Aliás, André construiu casa aqui ao lado da nossa onde, no verão de 62, ficou a Brigitte Bardot - revela.

Bento não acompanhava muito Dona Eudóxia e os extasiados convidados nos alegres banhos de mar às selvagens praias buzianas, como "a perigosa Geribá, a calmíssima Azeda, a isolada Tartaruga, a escondida Ferradurinha onde vimos tartaruguinhas recém-nascidas correndo para o mar, a deserta Tucuns, além da traiçoeira Lagoinha, onde a força das ondas arrastava tudo, inclusive pescadores desatentos".

Ele curtia mais a população e os empreendimentos que nela fazia, como a construção do cais de proteção à colina onde fica a centenária igreja de Sant'Anna, a igreja de Santa Rita de Cássia (Manguinhos), diversas ruas de acesso às praias.

- A sua Kombi servia tanto para transportar caixões ao cemitério como para percorrer a cidade com fotógrafo e datilógrafo alistando os moradores para as eleições. Nossa casa era ao mesmo tempo embaixada e pronto-socorro e a Kombi, também uma ambulância - diz Dona Eudóxia.

Duas histórias deliciosas mostram bem quem era o Doutor Bento ou o popular Zé Bento. Certo dia, passando com sua Kombi por um carro moderno parado na estrada com o pneu furado, ele parou, saltou, trocou o estepe, recebeu gorjeta do motorista e seguiu viagem. Quando chegou em casa, mais tarde, deparou com os ocupantes do carro que socorreu. Eram convidados da mulher para um alentado almoço que riram muito com o detalhe da gorjeta.

Outra história conta que o embaixador inglês, no Rio, Sir Geofrey Wallinger chegou para almoçar em sua casa vestido com paletó de flanela e foullard, mas ao ver o anfitrião com shorts e camisa de malha, pediu formalmente permissão à Dona Eudóxia, foi em casa, trocou de roupa e voltou de bermudas como o anfitrião.

José Bento Ribeiro Dantas morreu às 22 horas do dia 29 de abril de 1969, aos 65 anos, em sua casa de Manguinhos, após sentir-se mal quando se preparava para dormir. Ele chegou a receber a extrema unção dada pelo amigo e frei Pierre Secondi, reitor da PUC-RJ que, por coincidência, estava hospedado na casa vizinha.

Dona Eudóxia, cercada dos filhos Bentinho e Marcos, dos oito netos e três bisnetos, continua curtindo a família e os convidados na mesma casa de Manguinhos.