Artes

Abigail pinta enormes quadros fauvistas como paisagens vistas de sua janela

Quadro na entrada do atelier

Apesar do complicado sobrenome Vasthi Schelmm, Abigail é filha de brasileiro remanescente de família de fazendeiros plantadores de café, que trabalhou como telegrafista da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil e aposentou-se prematuramente por motivo de saúde. Nascida há 63 anos na cidade fluminense de Governador Portela, sofreu forte influência das educadoras do Colégio de Valença onde estudou até os 17 anos e aprendeu noções definitivas de ordem, disciplina e humanidade.

Como melhor herança de seus pais cita a liberdade, o carinho e a educação, mesmo advinda de uma vida na miséria, com infância camponesa, e não de periferia de cidade. A falta crônica de dinheiro na família, a transformou numa pessoa esperta e criativa.

Foto by Sergio Fleury


Aos 18 anos (1955), já casada, Abigail passou no concurso para escrituraria de uma companhia de seguros agrícola, no Rio de Janeiro, onde ocupava o cargo de assistente da presidência quando do seu fechamento pelo governo militar. Transferida para a SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) exerceu a diretoria de um departamento.

Como "sabia desenhar antes mesmo de aprender a escrever", desenvolveu sua vocação para as artes plásticas e se dedicou à pintura usando a cor dos fauvistas, a liberdade dos expressionistas e a temática dos impressionistas. No início em telas normais, depois enormes, em tamanho natural, "gente com tamanho de gente".


Casada pela segunda vez, morou seis anos em São Paulo onde pintava com pastel e óleo as mulheres de uma favela onde trabalhou ensinando as moradoras a costurar, a valorizar o trabalho e a pensar através de um teatro de situações. De volta ao Rio, retomou as visitas a Búzios que conheceu como refúgio nos anos 70, comprou casa na Ferradura e aceitou convite da Stella Avellaneda para deixar quadros em exposição em sua loja buziana "My kind of home". A venda das obras a fez comercializar a própria arte.

É o que faz atualmente no charmoso atelier na Rua das Pedras, 151 (fones 24-2623-6619 ou 2493-2020, no Rio), onde quadros enormes (acrílico e óleo) são expostos "como se fossem janelas dando para uma paisagem intimista".

E Abigail tem razão: ela nos recebe entre seus quadros como a um amigo que a visita.

Apareça!

Foto by Sergio Fleury
Foto by Sergio Fleury

Abigail expõe quadros de mulheres vestidas, elegantes, nuas e intrigantes

Quadro "Sono sem sonho"

"Eu sou pintora. Só pintora. Uma pintora assumida, independente, fora das modas, que reinterpreta de maneira pessoal as cores legadas pelo Fauvismo, a liberdade exarcebada pelo Expressionismo e a beleza redescoberta pelo Impressionismo, sem me submeter ao patrulhamento ou cobranças dos grupos contemporâneos".

"Eu pinto o que gosto. E eu gosto de pintar balés de GUARDA-SÓIS, silenciosos ESPANTALHOS, livres e generosos GIRASSÓIS e MULHERES: nuas, elegantemente vestidas ou retraídas num intrigante silêncio.
...Assim, eu pinto. Eu penso. Eu existo". Abigail Vasthi Schelemm

(da exposição O Silêncio e o Tempo)